sereias
















Prejudiciais à saúde e conducentes à morte eram também as sereias. A Grécia antiga representou-as com corpo de pássaro e rosto de mulher. Dada a história complexa e atribulada destes seres extraordinários, não se pode ter a certeza de quando é que perderam as asas e ganharam o rabo de peixe. Há quem diga que foi ainda em tempo mítico, ao saírem derrotadas de um duelo de canto com as musas, que, vitoriosas, se fizeram coroas de glória com as penas das perdedoras (quem sabe inspirando a célebre camoniana perdigão perdeu a pena ?); e há quem diga também que foi o lobby dos ministros da nova seita, na fúria reformista para impor a sua própria mitologia, que as exterminou, pois era inadmissível que aquelas aleivosas predadoras fossem parecidas com os celestiais anjos cristãos.


Uma das sereias nomeadas nos livros antigos era Parthenope, a mais nova das três que, descolando dos penhascos de Capri, ou, mais provavelmente, das ilhotas Li Galli em frente a Positano, tentaram seduzir o primeiro pinga-amores ou quebra-corações da História, o rei Ulisses. Não o logrando, pois Circe avisara o herói da fatalidade iminente que já dizimara tantos incautos, atirou-se ao Tirreno, dando assim de beber à dor, avant la lettre, pois que Homero, enigmaticamente, já cantara a cor de vinho do mar. Terá sido a imaturidade emocional da jovem sereia a provocar voos tão ensandecidos que lhe saiu o canto pela culatra, tal o desnorte a que todo o género de paixão induz. De uma forma ou de outra, o corpo do delito deu à costa e sobre o túmulo da infeliz ergueram-se os fundamentos de uma localidade onde foi venerada como deusa do amor. Séculos mais tarde, os colonos gregos expandiram-se e, a poucos quilómetros de distância, fundariam Neapolis (cidade nova), enquanto a outra passava à lenda. Por essa razão, Parthenope é o genius loci de Nápoles e renasce cada vez que designa a cidade ou algo que se lhe refira.



imagens, de cima para baixo: Ulisses e as Sereias, em ânfora grega, século V a.C.; sereias em mármore, do Museu Arqueológico de Atenas; sereia em prato de cerâmica encontrado em Tanagra e exposto no Louvre.