a Máfia chamava-lhe Santo, mas era uma castigo de Deus




















No romance, o restaurante onde Simon Templar se encontrava no início de mais esta aventura, chamava-se Le Arcate e ainda hoje existe, em Nápoles, muito conceituado gastronomicamente, mas também reputado pela estimulante panorâmica sobre o golfo, que a clientela pode saborear ao mesmo tempo que sacia outros apetites. No filme, lembrado pelo amável capitão Haddock, toma o nome de La Lanterna, e saltam-se as divagações sobre a Aragosta alla Vesuvio (uma lagosta suada bem picante) e o vinho “leve e fresco” Rosa del Vesuvio, com que o nosso herói se entretinha, ao ser perturbado por uma discussão.

Um inglês de meia-idade e ar encolhido e tímido, “de calças de flanela e casaco de tweed”, reconhecera um italiano, “de fato de seda natural cinzento-pérola, de corte soberbo”, a quem chamava Dino Cartelli. Este negava tal identidade e, perante a insistência (gentilmente ansiosa) do estrangeiro, não demorou a fazer inefável gesto de queixo aos capangas, para que lhe tratassem da saúde. De facto, leva um valente soco nas costelas. E não mais, porque o Santo, ao contrário dos passivos circunstantes, salta, fleumático mas firme, em defesa do ofendido (ainda que desgostoso pelo iminente arrefecimento da lagosta) e trava os punhos do guarda-costas abrutalhado. Subtraindo-se à escandaleira que poderia pôr em risco a discrição com que pretendia resguardar a sua pseudo-identidade, o "Não-Dino" cospe um basta! , e vão-se os bandidos embora, em fila indiana.

Simon convida, então, a vítima a sentar-se à sua mesa e a beber um pouco de vinho, para se acalmar. James Euston aceita, gratíssimo e infeliz. Palavra puxa palavra, recorda os pormenores da sua amizade com Dino Cartelli, quando bancários em Palermo, antes da guerra, e expõe a triste perplexidade pelo comportamento do dito. Recusa com gentileza o convite de Simon para o acompanhar na refeição, deixa-lhe um cartão e sai de cena. Após o repasto, o "Robin Hood do Crime Moderno" ainda tenta tirar nabos da púcara junto dos empregados do estabelecimento, sobre a identidade dos brutamontes, mas é confrontado com a famosa omertà (silêncio medroso e merdoso de testemunhas evidentes que, porém, não sabem, não viram, não ouviram nada) e recolhe ao hotel. No dia seguinte, ao folhear o jornal, vê um título no fundo da segunda página: turista inglês assassinado. Trata-se de James Euston, verificará, ao ler a notícia. “Claro que o jornal considerava o roubo como o móbil óbvio. O cadáver fora encontrado com a cabeça esmagada e limpo de dinheiro, num beco perto do hotel : tudo indicava que tivera o azar de ser assaltado por ladrões ao regressar ao quarto.”

Ainda que cognominado de O Santo, Simon não tem, como virtude, “um espírito inclinado ao perdão” . Aliás, de santo pouco tem, pois que é um fora-da-lei: rouba ricalhaços e escroques corruptos e faz justiça por sua conta e risco. Assim, mesmo que o inglês inocente lhe tenha apenas passado de resvés na vida, não poderia ficar indiferente nem passivo perante a sua intuição. “Para ele, o aroma da patifaria duplamente destilada [no restaurante e no beco] juntava-se, sem dúvida nenhuma, aos eflúvios deletérios e omniprevalecentes de Nápoles”. E iria perseguir os prepotentes, de antemão seguros de impunidade, até à Sicília. E virar a vendetta contra o poder que a inventara para a sua política de intimidação pelo terror.

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Capa: Lima de Freitas.

Citações entre aspas retiradas do livro em questão, entre as páginas 7 e 16.

Este livro, de 1964, não foi escrito pelo chino-britânico Leslie Charteris, mas por Harry Harrison. No máximo, terá sido uma parceria.Todos os livros posteriores a esta data, mantendo a autoria de Charteris, não foram escritos por ele.
A edição italiana do filme (1972) tomou o título de La Mafia lo chiamava il Santo ma era un castigo di Dio, que muito lembra os dos western spaghetti mais trash, mas como tantos destes, tornou-se um cult. Um ano depois, Roger Moore era escolhido para substituir Sean Connery no papel de James Bond.