Pulcinella, de Giambattista Tiepolo





































Eu pertencia ao grupo de pessoas que estavam em suspenso, à espera do que iria acontecer ao Tiepolo que o Estado português acabou por comprar.

Giambattista Tiepolo ou Giovanni Battista Tiepolo foi considerado, no seu tempo, o grande leão dos pintores venezianos, prolongando-se o rugir do seu virtuosismo por todo o século XVIII. Com o advento do neo-classicismo, a sua aura foi empalidecendo, até ser peremptoriamente menosprezada por ilustres seres como John Ruskin, que considerou a obra frívola e artificial.

Mas onde quer chegar o core mio é a Pulcinella (Policenella), a mais famosa máscara do carnaval napolitano, entretanto absorvida pela commedia dell'arte e posteriormente transformada em símbolo do homem napolitano.
As águas-fortes que aqui o representam são, precisamente, de Giambattista Tiepolo e com elas mato dois coelhos de uma só cajadada, celebrando a aquisição para o nosso Museu, sem porém sair de Nápoles.
Pois é verdade: o pintor de inefáveis alegorias, retratos e esplendorosas cenas históricas e mitológicas (cristãs e pagãs), foi também um implacável retratista da sociedade e do espírito do (seu) tempo. Pulcinella, duplo do homem comum, expõe-se em crua representação do grotesco da humanidade. Só ou em grupo, é retratado como um anão corcunda, de nariz fálico e meia máscara um tanto macabra, ocupado apenas em satisfazer as precisões físicas primárias, sejam comer, fornicar, urinar ou defecar, entre outras. Fazem parte das série de incisões Capricci e Scherzi, que alguns críticos consideram um prelúdio aos Caprichos de Goya.

Com o passar do tempo o carácter de Pulcinella foi evoluindo. Na commedia dell'arte torna-se o antagonista de Arlecchino, o servo palerma, submisso e ingénuo, sentimentalão a morrer de fome, sem nunca encontrar meios de a matar, enquanto ele é o espertalhão, que consegue sempre desenrascar-se, gozando ostensivamente com os patrões e revelando as suas manobras obscuras de bastidores. No teatro de fantoches e de marionetas, deixa de ser servo e acaba mesmo por se tornar num anti-herói irreverente, cavaleiro defensor dos pobres e oprimidos, nas suas batalhas quotidianas pelo pão ou pela dignidade.





Polichinelos assediando uma mulher,
1730 c., Getty Museum

Homenagem a Polichinelo coroado,
Civici Musei, Trieste


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