alienartes

E agora, tempo para outras emoções, lendo ao fresco de uma sombra, antes que o calor nos faça ver manchas azuis por todo o lado.

Sugestão: que a mão esteja ao alcance de uma larga taça de cerejas e de um gin tónico bem pedrado de gelo. Aberto o apetite, podem continuar com um divertimento a várias mãos e depois verão que será um prazer ir descobrindo as prosas e os poemas do Alien. Basta seguir as etiquetas. Não só as que indicam os assuntos; também as gastronómicas, tal a deliciosa orientação sobre como se come um goraz!

Não deixem de ler A Boneca.

quem com ferro mata...

Quem estiver interessado(a) em esclarecer e/ou consultar o texto, comentários e links que aqui estiveram publicados entre 28 de Janeiro e Quarta-Feira de Cinzas, 6 de Fevereiro, pela manhã, é favor contactar-me por email . Hora de expediente: de segunda a sexta-feira, entre as dez e as dezassete horas, com intervalos irregulares para ir fumar. Hora de almoço: entre as treze e as quinze. Folga à quarta-feira. Sigilo absoluto.

clãs e capelinhas


Embora tenham organizações diferentes, a máfia siciliana toma o nome de camorra em Nápoles, cidade que está minada por ela e pelos seus clãs ou famílias. No fundo, no fundo, clãs ou famílias pouco se diferenciam do vetusto nome que se dá por cá às capelinhas. Elas estão por todo o lado, as capelinhas, como os monstros - os verdadeiros, de carne e osso, e não aqueles fantasiados pelos monstros-eles-próprios-mentes-humanas, para amedrontar o incauto e ingénuo ignorante de que as suas desventuras se devem ao sobrenatural e não a ele próprio, vizinho ou pretenso amigo e/ou amante, o que ama ou o que diz que ama, tal Brutus ameno perante César, Judas que beija Cristo, ou o indizível Iago, tão amigo de Othello! , bem lembrado pela madame Maigret.
Digladiam-se as capelinhas mas, persona non grata é, sobretudo, quem se recusa a ter capelinha. E quando isso acontece, quando a capelinha não consegue aliciar-te para "correligionário" ou "aliado", nem consegue abater-te, vinga-se através dos teus mais próximos. Tal e qual como entre as famílias mafiosas que, perante a incorrupção de um "inimigo", vão massacrar-lhe os pais, as mulheres, os amigos, os filhos. Boa ocasião para rever , entre outros, os Padrinhos de Coppola ou a pretérita, mas sempre actual, série O Polvo (La Piovra).

"Mentira", Salvator Rosa




















I

Há muitas espécies de monstros, alguns bem reais. Gentinhas de aparência "normal" , ou talvez nem tanto; podres de chiques, podres de boas intenções, de falinhas mansas e tan podres de chorosas e cheirosas das desgraças do mundo ... mas, literalmente, bem podres por dentro, sobretudo na cabeça que, de tão putrefacta, já está quase oca. Aparecem sem aviso. Esguardae e atentae, que elas andam aí.

II

Pois que são gente de vida pequena, e tecem as dos outros como tricot apesar de não lhes conhecerem tamanho nem formato.Temem as felicidades alheias porque são o espelho da pequenez do seu mundo, aquele mundo estreito onde não cabe a imensidão de dar, ou a capacidade de receber . Já lhes caiu a máscara e não percebem que têm cara exposta já carcomida de tanta invenção, de tanta hipocrisia, tanta intriga. Andam por aí...pois andam, vestidos de agrura, a olhar aqueles que vivem. Deve ser triste estar morto e não se dar por isso.

(
Lizzie, abaixo, em comentário)




imagem: Salvator Rosa, Mentira (Menzogna, 1645-48)

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a Máfia chamava-lhe Santo, mas era uma castigo de Deus




















No romance, o restaurante onde Simon Templar se encontrava no início de mais esta aventura, chamava-se Le Arcate e ainda hoje existe, em Nápoles, muito conceituado gastronomicamente, mas também reputado pela estimulante panorâmica sobre o golfo, que a clientela pode saborear ao mesmo tempo que sacia outros apetites. No filme, lembrado pelo amável capitão Haddock, toma o nome de La Lanterna, e saltam-se as divagações sobre a Aragosta alla Vesuvio (uma lagosta suada bem picante) e o vinho “leve e fresco” Rosa del Vesuvio, com que o nosso herói se entretinha, ao ser perturbado por uma discussão.

Um inglês de meia-idade e ar encolhido e tímido, “de calças de flanela e casaco de tweed”, reconhecera um italiano, “de fato de seda natural cinzento-pérola, de corte soberbo”, a quem chamava Dino Cartelli. Este negava tal identidade e, perante a insistência (gentilmente ansiosa) do estrangeiro, não demorou a fazer inefável gesto de queixo aos capangas, para que lhe tratassem da saúde. De facto, leva um valente soco nas costelas. E não mais, porque o Santo, ao contrário dos passivos circunstantes, salta, fleumático mas firme, em defesa do ofendido (ainda que desgostoso pelo iminente arrefecimento da lagosta) e trava os punhos do guarda-costas abrutalhado. Subtraindo-se à escandaleira que poderia pôr em risco a discrição com que pretendia resguardar a sua pseudo-identidade, o "Não-Dino" cospe um basta! , e vão-se os bandidos embora, em fila indiana.

Simon convida, então, a vítima a sentar-se à sua mesa e a beber um pouco de vinho, para se acalmar. James Euston aceita, gratíssimo e infeliz. Palavra puxa palavra, recorda os pormenores da sua amizade com Dino Cartelli, quando bancários em Palermo, antes da guerra, e expõe a triste perplexidade pelo comportamento do dito. Recusa com gentileza o convite de Simon para o acompanhar na refeição, deixa-lhe um cartão e sai de cena. Após o repasto, o "Robin Hood do Crime Moderno" ainda tenta tirar nabos da púcara junto dos empregados do estabelecimento, sobre a identidade dos brutamontes, mas é confrontado com a famosa omertà (silêncio medroso e merdoso de testemunhas evidentes que, porém, não sabem, não viram, não ouviram nada) e recolhe ao hotel. No dia seguinte, ao folhear o jornal, vê um título no fundo da segunda página: turista inglês assassinado. Trata-se de James Euston, verificará, ao ler a notícia. “Claro que o jornal considerava o roubo como o móbil óbvio. O cadáver fora encontrado com a cabeça esmagada e limpo de dinheiro, num beco perto do hotel : tudo indicava que tivera o azar de ser assaltado por ladrões ao regressar ao quarto.”

Ainda que cognominado de O Santo, Simon não tem, como virtude, “um espírito inclinado ao perdão” . Aliás, de santo pouco tem, pois que é um fora-da-lei: rouba ricalhaços e escroques corruptos e faz justiça por sua conta e risco. Assim, mesmo que o inglês inocente lhe tenha apenas passado de resvés na vida, não poderia ficar indiferente nem passivo perante a sua intuição. “Para ele, o aroma da patifaria duplamente destilada [no restaurante e no beco] juntava-se, sem dúvida nenhuma, aos eflúvios deletérios e omniprevalecentes de Nápoles”. E iria perseguir os prepotentes, de antemão seguros de impunidade, até à Sicília. E virar a vendetta contra o poder que a inventara para a sua política de intimidação pelo terror.

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Capa: Lima de Freitas.

Citações entre aspas retiradas do livro em questão, entre as páginas 7 e 16.

Este livro, de 1964, não foi escrito pelo chino-britânico Leslie Charteris, mas por Harry Harrison. No máximo, terá sido uma parceria.Todos os livros posteriores a esta data, mantendo a autoria de Charteris, não foram escritos por ele.
A edição italiana do filme (1972) tomou o título de La Mafia lo chiamava il Santo ma era un castigo di Dio, que muito lembra os dos western spaghetti mais trash, mas como tantos destes, tornou-se um cult. Um ano depois, Roger Moore era escolhido para substituir Sean Connery no papel de James Bond.

sereias
















Prejudiciais à saúde e conducentes à morte eram também as sereias. A Grécia antiga representou-as com corpo de pássaro e rosto de mulher. Dada a história complexa e atribulada destes seres extraordinários, não se pode ter a certeza de quando é que perderam as asas e ganharam o rabo de peixe. Há quem diga que foi ainda em tempo mítico, ao saírem derrotadas de um duelo de canto com as musas, que, vitoriosas, se fizeram coroas de glória com as penas das perdedoras (quem sabe inspirando a célebre camoniana perdigão perdeu a pena ?); e há quem diga também que foi o lobby dos ministros da nova seita, na fúria reformista para impor a sua própria mitologia, que as exterminou, pois era inadmissível que aquelas aleivosas predadoras fossem parecidas com os celestiais anjos cristãos.


Uma das sereias nomeadas nos livros antigos era Parthenope, a mais nova das três que, descolando dos penhascos de Capri, ou, mais provavelmente, das ilhotas Li Galli em frente a Positano, tentaram seduzir o primeiro pinga-amores ou quebra-corações da História, o rei Ulisses. Não o logrando, pois Circe avisara o herói da fatalidade iminente que já dizimara tantos incautos, atirou-se ao Tirreno, dando assim de beber à dor, avant la lettre, pois que Homero, enigmaticamente, já cantara a cor de vinho do mar. Terá sido a imaturidade emocional da jovem sereia a provocar voos tão ensandecidos que lhe saiu o canto pela culatra, tal o desnorte a que todo o género de paixão induz. De uma forma ou de outra, o corpo do delito deu à costa e sobre o túmulo da infeliz ergueram-se os fundamentos de uma localidade onde foi venerada como deusa do amor. Séculos mais tarde, os colonos gregos expandiram-se e, a poucos quilómetros de distância, fundariam Neapolis (cidade nova), enquanto a outra passava à lenda. Por essa razão, Parthenope é o genius loci de Nápoles e renasce cada vez que designa a cidade ou algo que se lhe refira.



imagens, de cima para baixo: Ulisses e as Sereias, em ânfora grega, século V a.C.; sereias em mármore, do Museu Arqueológico de Atenas; sereia em prato de cerâmica encontrado em Tanagra e exposto no Louvre.

Pulcinella, de Giambattista Tiepolo





































Eu pertencia ao grupo de pessoas que estavam em suspenso, à espera do que iria acontecer ao Tiepolo que o Estado português acabou por comprar.

Giambattista Tiepolo ou Giovanni Battista Tiepolo foi considerado, no seu tempo, o grande leão dos pintores venezianos, prolongando-se o rugir do seu virtuosismo por todo o século XVIII. Com o advento do neo-classicismo, a sua aura foi empalidecendo, até ser peremptoriamente menosprezada por ilustres seres como John Ruskin, que considerou a obra frívola e artificial.

Mas onde quer chegar o core mio é a Pulcinella (Policenella), a mais famosa máscara do carnaval napolitano, entretanto absorvida pela commedia dell'arte e posteriormente transformada em símbolo do homem napolitano.
As águas-fortes que aqui o representam são, precisamente, de Giambattista Tiepolo e com elas mato dois coelhos de uma só cajadada, celebrando a aquisição para o nosso Museu, sem porém sair de Nápoles.
Pois é verdade: o pintor de inefáveis alegorias, retratos e esplendorosas cenas históricas e mitológicas (cristãs e pagãs), foi também um implacável retratista da sociedade e do espírito do (seu) tempo. Pulcinella, duplo do homem comum, expõe-se em crua representação do grotesco da humanidade. Só ou em grupo, é retratado como um anão corcunda, de nariz fálico e meia máscara um tanto macabra, ocupado apenas em satisfazer as precisões físicas primárias, sejam comer, fornicar, urinar ou defecar, entre outras. Fazem parte das série de incisões Capricci e Scherzi, que alguns críticos consideram um prelúdio aos Caprichos de Goya.

Com o passar do tempo o carácter de Pulcinella foi evoluindo. Na commedia dell'arte torna-se o antagonista de Arlecchino, o servo palerma, submisso e ingénuo, sentimentalão a morrer de fome, sem nunca encontrar meios de a matar, enquanto ele é o espertalhão, que consegue sempre desenrascar-se, gozando ostensivamente com os patrões e revelando as suas manobras obscuras de bastidores. No teatro de fantoches e de marionetas, deixa de ser servo e acaba mesmo por se tornar num anti-herói irreverente, cavaleiro defensor dos pobres e oprimidos, nas suas batalhas quotidianas pelo pão ou pela dignidade.





Polichinelos assediando uma mulher,
1730 c., Getty Museum

Homenagem a Polichinelo coroado,
Civici Musei, Trieste


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"Gabinetto Segreto" do Museo Archeologico Nazionale


















Imaginemos, então, a cara de Katherine/Ingrid Bergman, se o Gabinetto Segreto do Museo estivesse aberto e o impagável cicerone a tivesse levado àquelas salas ... Mas na altura ainda se encontrava fechado para obras de restauros e remodelações, após dois séculos de censura e clausura, com mui esporádicas aberturas - sempre, porém, com acesso condicionado por permesso speciale no que respeitava a mulheres e a padres. Contudo, ela já pôde ver as Vénus nuas. - É que desde 1819, quando foi aberto o Gabinetto degli Oggetti Osceni, no Museo, todas elas foram sendo, pouco a pouco, ali enclausuradas. Mas essas peripécias poderão ser investigadas, ao pormenor, no google, com certeza.





















Estes dois frescos acima * lá estão, entre outros, e mais esculturas, mosaicos, amuletos, objectos vários do quotidiano e até ex-votos, como os desta vitrine em baixo, provenientes do santuário samnita de Cales (hoje em dia, Calvi Risorta, na província de Caserta, sempre na Campânia, a norte de Nápoles); ou o fogareiro de bronze, trazido da Casa Giulia Felice, de Pompeia, cujas delicadas pernas figuram jovens sátiros.




















A este propósito, convém lembrar que estas peças são todo um manancial não só de prazer estético (e/ou voyeurista - que todo o amante de arte e coleccionador o é), mas também de informações que ultrapassam o âmbito da cultura erótico-amorosa das sodomas e gomorras castigadas pelo Vesúvio, e que se expandem nos âmbitos da magia, da religião, do prosaico dia-a-dia, da caricatura, dos ritos funerários e do próprio comércio, já que boa parte delas chega até nós através da profissão mais antiga do mundo.

Posto isto, só me falta revelar que esta página tem como objectivo subliminar criar um lobby entusiasta que pressione os transportes aéreos portugueses a fazer rota directa Lisboa-Nápoles, nem que seja uma vez por mês, porque senão é uma trabalheira dos diabos. Estou a tratar de redigir a petição.



* Na banda direita, de baixo para cima: grupo escultórico em bronze, época romana; Mercúrio, amiúde e erroneamente confundido com Príapo; um sátiro ou Pan, que se prepara para iniciar o pastorinho Dáfnis na arte da flauta, ou não só; tintinnabulum em forma de gladiador; estatueta em bronze de Príapo, que se derrama perfume (de Portici, sec.I d.C); sátiro e ninfa, de Pompeia, mesmo século.



















e 'l naufragar m'è dolce in questo mare





































retalhos sobre Serghej Potapenko
com verso de Giacomo Leopardi, in L' Infinito