alienartes
Sugestão: que a mão esteja ao alcance de uma larga taça de cerejas e de um gin tónico bem pedrado de gelo. Aberto o apetite, podem continuar com um divertimento a várias mãos e depois verão que será um prazer ir descobrindo as prosas e os poemas do Alien. Basta seguir as etiquetas. Não só as que indicam os assuntos; também as gastronómicas, tal a deliciosa orientação sobre como se come um goraz!
quem com ferro mata...
clãs e capelinhas
Embora tenham organizações diferentes, a máfia siciliana toma o nome de camorra em Nápoles, cidade que está minada por ela e pelos seus clãs ou famílias. No fundo, no fundo, clãs ou famílias pouco se diferenciam do vetusto nome que se dá por cá às capelinhas. Elas estão por todo o lado, as capelinhas, como os monstros - os verdadeiros, de carne e osso, e não aqueles fantasiados pelos monstros-eles-próprios-mentes-humanas, para amedrontar o incauto e ingénuo ignorante de que as suas desventuras se devem ao sobrenatural e não a ele próprio, vizinho ou pretenso amigo e/ou amante, o que ama ou o que diz que ama, tal Brutus ameno perante César, Judas que beija Cristo, ou o indizível Iago, tão amigo de Othello! , bem lembrado pela madame Maigret.
Digladiam-se as capelinhas mas, persona non grata é, sobretudo, quem se recusa a ter capelinha. E quando isso acontece, quando a capelinha não consegue aliciar-te para "correligionário" ou "aliado", nem consegue abater-te, vinga-se através dos teus mais próximos. Tal e qual como entre as famílias mafiosas que, perante a incorrupção de um "inimigo", vão massacrar-lhe os pais, as mulheres, os amigos, os filhos. Boa ocasião para rever , entre outros, os Padrinhos de Coppola ou a pretérita, mas sempre actual, série O Polvo (La Piovra).
"Mentira", Salvator Rosa

I
Há muitas espécies de monstros, alguns bem reais. Gentinhas de aparência "normal" , ou talvez nem tanto; podres de chiques, podres de boas intenções, de falinhas mansas e tan podres de chorosas e cheirosas das desgraças do mundo ... mas, literalmente, bem podres por dentro, sobretudo na cabeça que, de tão putrefacta, já está quase oca. Aparecem sem aviso. Esguardae e atentae, que elas andam aí.
Pois que são gente de vida pequena, e tecem as dos outros como tricot apesar de não lhes conhecerem tamanho nem formato.Temem as felicidades alheias porque são o espelho da pequenez do seu mundo, aquele mundo estreito onde não cabe a imensidão de dar, ou a capacidade de receber . Já lhes caiu a máscara e não percebem que têm cara exposta já carcomida de tanta invenção, de tanta hipocrisia, tanta intriga. Andam por aí...pois andam, vestidos de agrura, a olhar aqueles que vivem. Deve ser triste estar morto e não se dar por isso.
(Lizzie, abaixo, em comentário)
imagem: Salvator Rosa, Mentira (Menzogna, 1645-48)
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a Máfia chamava-lhe Santo, mas era uma castigo de Deus

No romance, o restaurante onde Simon Templar se encontrava no início de mais esta aventura, chamava-se Le Arcate e ainda hoje existe, em Nápoles, muito conceituado gastronomicamente, mas também reputado pela estimulante panorâmica sobre o golfo, que a clientela pode saborear ao mesmo tempo que sacia outros apetites. No filme, lembrado pelo amável capitão Haddock, toma o nome de La Lanterna, e saltam-se as divagações sobre a Aragosta alla Vesuvio (uma lagosta suada bem picante) e o vinho “leve e fresco” Rosa del Vesuvio, com que o nosso herói se entretinha, ao ser perturbado por uma discussão.
Um inglês de meia-idade e ar encolhido e tímido, “de calças de flanela e casaco de tweed”, reconhecera um italiano, “de fato de seda natural cinzento-pérola, de corte soberbo”, a quem chamava Dino Cartelli. Este negava tal identidade e, perante a insistência (gentilmente ansiosa) do estrangeiro, não demorou a fazer inefável gesto de queixo aos capangas, para que lhe tratassem da saúde. De facto, leva um valente soco nas costelas. E não mais, porque o Santo, ao contrário dos passivos circunstantes, salta, fleumático mas firme, em defesa do ofendido (ainda que desgostoso pelo iminente arrefecimento da lagosta) e trava os punhos do guarda-costas abrutalhado. Subtraindo-se à escandaleira que poderia pôr em risco a discrição com que pretendia resguardar a sua pseudo-identidade, o "Não-Dino" cospe um basta! , e vão-se os bandidos embora, em fila indiana.
Simon convida, então, a vítima a sentar-se à sua mesa e a beber um pouco de vinho, para se acalmar. James Euston aceita, gratíssimo e infeliz. Palavra puxa palavra, recorda os pormenores da sua amizade com Dino Cartelli, quando bancários em Palermo, antes da guerra, e expõe a triste perplexidade pelo comportamento do dito. Recusa com gentileza o convite de Simon para o acompanhar na refeição, deixa-lhe um cartão e sai de cena. Após o repasto, o "Robin Hood do Crime Moderno" ainda tenta tirar nabos da púcara junto dos empregados do estabelecimento, sobre a identidade dos brutamontes, mas é confrontado com a famosa omertà (silêncio medroso e merdoso de testemunhas evidentes que, porém, não sabem, não viram, não ouviram nada) e recolhe ao hotel. No dia seguinte, ao folhear o jornal, vê um título no fundo da segunda página: turista inglês assassinado. Trata-se de James Euston, verificará, ao ler a notícia. “Claro que o jornal considerava o roubo como o móbil óbvio. O cadáver fora encontrado com a cabeça esmagada e limpo de dinheiro, num beco perto do hotel : tudo indicava que tivera o azar de ser assaltado por ladrões ao regressar ao quarto.”
Ainda que cognominado de O Santo, Simon não tem, como virtude, “um espírito inclinado ao perdão” . Aliás, de santo pouco tem, pois que é um fora-da-lei: rouba ricalhaços e escroques corruptos e faz justiça por sua conta e risco. Assim, mesmo que o inglês inocente lhe tenha apenas passado de resvés na vida, não poderia ficar indiferente nem passivo perante a sua intuição. “Para ele, o aroma da patifaria duplamente destilada [no restaurante e no beco] juntava-se, sem dúvida nenhuma, aos eflúvios deletérios e omniprevalecentes de Nápoles”. E iria perseguir os prepotentes, de antemão seguros de impunidade, até à Sicília. E virar a vendetta contra o poder que a inventara para a sua política de intimidação pelo terror.
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Capa: Lima de Freitas.
Citações entre aspas retiradas do livro em questão, entre as páginas 7 e 16.
Este livro, de 1964, não foi escrito pelo chino-britânico Leslie Charteris, mas por Harry Harrison. No máximo, terá sido uma parceria.Todos os livros posteriores a esta data, mantendo a autoria de Charteris, não foram escritos por ele.
A edição italiana do filme (1972) tomou o título de La Mafia lo chiamava il Santo ma era un castigo di Dio, que muito lembra os dos western spaghetti mais trash, mas como tantos destes, tornou-se um cult. Um ano depois, Roger Moore era escolhido para substituir Sean Connery no papel de James Bond.
sereias


imagens, de cima para baixo: Ulisses e as Sereias, em ânfora grega, século V a.C.; sereias em mármore, do Museu Arqueológico de Atenas; sereia em prato de cerâmica encontrado em Tanagra e exposto no Louvre.
Pulcinella, de Giambattista Tiepolo


Eu pertencia ao grupo de pessoas que estavam em suspenso, à espera do que iria acontecer ao Tiepolo que o Estado português acabou por comprar.
Giambattista Tiepolo ou Giovanni Battista Tiepolo foi considerado, no seu tempo, o grande leão dos pintores venezianos, prolongando-se o rugir do seu virtuosismo por todo o século XVIII. Com o advento do neo-classicismo, a sua aura foi empalidecendo, até ser peremptoriamente menosprezada por ilustres seres como John Ruskin, que considerou a obra frívola e artificial.
Mas onde quer chegar o core mio é a Pulcinella (Policenella), a mais famosa máscara do carnaval napolitano, entretanto absorvida pela commedia dell'arte e posteriormente transformada em símbolo do homem napolitano.
As águas-fortes que aqui o representam são, precisamente, de Giambattista Tiepolo e com elas mato dois coelhos de uma só cajadada, celebrando a aquisição para o nosso Museu, sem porém sair de Nápoles.
Pois é verdade: o pintor de inefáveis alegorias, retratos e esplendorosas cenas históricas e mitológicas (cristãs e pagãs), foi também um implacável retratista da sociedade e do espírito do (seu) tempo. Pulcinella, duplo do homem comum, expõe-se em crua representação do grotesco da humanidade. Só ou em grupo, é retratado como um anão corcunda, de nariz fálico e meia máscara um tanto macabra, ocupado apenas em satisfazer as precisões físicas primárias, sejam comer, fornicar, urinar ou defecar, entre outras. Fazem parte das série de incisões Capricci e Scherzi, que alguns críticos consideram um prelúdio aos Caprichos de Goya.
Com o passar do tempo o carácter de Pulcinella foi evoluindo. Na commedia dell'arte torna-se o antagonista de Arlecchino, o servo palerma, submisso e ingénuo, sentimentalão a morrer de fome, sem nunca encontrar meios de a matar, enquanto ele é o espertalhão, que consegue sempre desenrascar-se, gozando ostensivamente com os patrões e revelando as suas manobras obscuras de bastidores. No teatro de fantoches e de marionetas, deixa de ser servo e acaba mesmo por se tornar num anti-herói irreverente, cavaleiro defensor dos pobres e oprimidos, nas suas batalhas quotidianas pelo pão ou pela dignidade.
Polichinelos assediando uma mulher,
1730 c., Getty Museum
Homenagem a Polichinelo coroado,
Civici Musei, Trieste
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"Gabinetto Segreto" do Museo Archeologico Nazionale
Imaginemos, então, a cara de Katherine/Ingrid Bergman, se o Gabinetto Segreto do Museo estivesse aberto e o impagável cicerone a tivesse levado àquelas salas ... Mas na altura ainda se encontrava fechado para obras de restauros e remodelações, após dois séculos de censura e clausura, com mui esporádicas aberturas - sempre, porém, com acesso condicionado por permesso speciale no que respeitava a mulheres e a padres. Contudo, ela já pôde ver as Vénus nuas. - É que desde 1819, quando foi aberto o Gabinetto degli Oggetti Osceni, no Museo, todas elas foram sendo, pouco a pouco, ali enclausuradas. Mas essas peripécias poderão ser investigadas, ao pormenor, no google, com certeza.

* Na banda direita, de baixo para cima: grupo escultórico em bronze, época romana; Mercúrio, amiúde e erroneamente confundido com Príapo; um sátiro ou Pan, que se prepara para iniciar o pastorinho Dáfnis na arte da flauta, ou não só; tintinnabulum em forma de gladiador; estatueta em bronze de Príapo, que se derrama perfume (de Portici, sec.I d.C); sátiro e ninfa, de Pompeia, mesmo século.















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